Lê aí...
Opinião, Rio de Janeiro

Onde está o problema?


Hoje, o Rio de Janeiro está em clima de guerra contra os traficantes de drogas. E nesse momento sempre surgem culpados e soluções praticas. Especialmente, uma polarização vem a tona.

De um lado, aqueles que não usam drogas, odeiam os usuários e os culpam por financiar o tráfico de drogas. Os mais incisivos defendem que os usuários sejam criminalizados e sofram algum tipo de pena.

Do outro lado, os usuários e mais alguns simpatizantes respondem que eles não são o problema e a solução é a legalização das drogas ou ao menos de algumas delas, principalmente, a maconha.

Na minha opinião, essa polarização diminui muito a discussão. Eu entendo os argumentos dos dois lados, mas nenhum deles está certo.

Isso porque usuários de drogas existem no mundo todo. E na grande maioria dos países as drogas são proibidas. Mas aí eu pergunto: em quantos desses países, a violência relacionada ao tráfico é igual à violência do Rio? E mesmo no Brasil, em todas as cidades existem usuários e traficantes e qual é tão violenta quanto a nossa?

Daí se conclui que o problema é local. Então vamos pensar nas questões locais.

Uma característica da nossa cidade que não é um problema, mas que é um agravante é o relevo. Sim, o nosso relevo ajudou na criação desse monstro. Isso porque nós temos muitos morros e montanhas no meio da cidade. São lugares que não deveriam ser habitados, mas com o crescimento da cidade foram ocupados pelos pobres, formando favelas com casas amontuadas, ruas estreitas… Enfim, como já se conhece hoje.

Agora, chegamos no primeiro problema e mais importante de todos: o descaso histórico dos governantes cariocas com essa população. Durante muito tempo não foi dada a devida atenção para o crescimento das favelas. O Estado e a Polícia nunca tiveram ali. Juntando políticos desinteressados com população pobre num lugar de difícil acesso, a situação foi se agravando. Uma vez que o crime organizado estava estabelecido, ficou bastante complicado. O Estado só conseguiria retomar o comando com a ajuda da polícia.

Aí chegamos no segundo problema, a corrupção de alguns policiais. Primeiramente, vamos falar do salário dos policiais. Segundo informações veiculadas na Rede Record, um policial no Rio de Janeiro ganha por volta de R$ 900,00 por mês. Apenas a título de comparação, segundo as informações veiculadas, cada pessoa ganhava R$ 500,00 dos traficantes para incendiar um ônibus!!!! Ou seja, os bandidos pagam bem melhor ao seu exército do que o Estado.

Ao policial de bem, a opção é ganhar seu salário e morar próximos às comunidades, onde ele tem que se esconder pra não ser reconhecido como um policial. Já os policiais corruptos tem outras opções, dentre elas:  recebimento do “arrego”, que é um pagamento dado pelos líderes criminosos para os policiais para não serem “incomodados” nos seus negócios e no baile funk (um momento muito lucrativo para o negócio do tráfico) e, principalmente, o fornecimento de armas para criminosos.

E aí chegamos no terceiro problema importante: a facilidade com que os traficantes tem acesso às armas. E aqui os culpados não são só os policiais corruptos, mas trata-se também de um problema federal que envolve a facilidade do tráfico internacional de armas em colocar seus produtos aqui dentro do país.

E aqui no Rio temos outro agravante: a existência de mais de uma facção criminosa e a grande rivalidade entre elas para a obtenção de pontos de venda.

Neste cenário, fica claro que o problema é complexo e sua solução, consequentemente, também é.

Mas um evento surgiu e ajudou a quebrar alguns mitos. O surgimento de uma nova facção criminosa: as milícias.

O primeiro mito derrubado pelas milícias era o de que seria impossível ou de que precisaria de um efetivo enorme para subir o morro, lutando contra o relevo e infra-estrutura favorável a quem está em cima e quem nasceu e conhece bem o território, e tirar de lá os traficantes.

O segundo mito derrubado é achar que a culpa é do comércio ilegal de drogas. Ao estender os negócios para taxas de segurança, “gato net”, taxas cobradas sobre comerciantes etc, eles mostraram que na ausência do Estado, ali existiria uma organização criminosa mesmo que não houvesse o tráfico. Apenas as fontes de renda seriam outras atividades ilegais.

Sendo assim, é hora de aproveitar o momento para consertar um dos problemas: a presença do Estado e da Polícia nas comunidades. Isso significa subir e ficar lá nas comunidades. Mas as outras duas bases do tripé também precisam ser combatidas: a corrupção na Polícia e no Estado e facilidade de acesso às armas pelos criminosos.

Definitivamente, as soluções simplórias de condenar os usuários ou legalizar as drogas não resolveriam os problemas de violência no Rio de Janeiro.

————————————

Por Leandro

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Discussão

18 comentários sobre “Onde está o problema?

  1. Parabéns Leandro até que enfim alguém com uma visão holística da coisa!
    O estado é ausente desde os tempos do Brizola e ponto final, ridículo aquele hastiamento da Bandeira do RJ no topo do Alemão. Convém lembrar ao nosso governador que ele é um político reeleito , teve quatro anos de gestão já. Grande parte do que está acontecendo é culpa dele sim!Ele parece em herói. Patton na Segunda Guerra Mundial !!

    Publicado por Keko | 29/11/2010, 9:23 am
  2. hasteamento perdão

    Publicado por Keko | 29/11/2010, 9:23 am
  3. Leandro, gostei bastante do que você escreveu. Concordo totalmente!
    Desejo que as coisas melhorem para que todos tenham oportunidade! Que estas pessoas também comecem a ter mais amor pelo local que vivem e parem de jogar lixo em qlq lugar, parem de comprar gatonet, parem roubar luz…

    Publicado por Li. (salvemequempuder) | 29/11/2010, 2:29 pm
  4. Assino!!!

    Belo texo poeta!!!!

    Achei o hasteamento das bandeiras do Rio de Janeiro e do Brasil emblemáticos!

    Publicado por Gustavo | 29/11/2010, 4:09 pm
  5. Agora aquele território está sob o controle do Estado.

    Qual Estado? Esse mesmo que eu conheço?

    Pensem bem, gente, a PAZ está reinando no Alemão. Como gostam de dizer, o território foi tomado. Acabou a covardia e a selvageria. O roubo de motos e os tiros vão diminuir ou quase acabar.

    Chamo a atenção de vcs para um detalhe: Saberiam me responder qual o percentual da comunidade que mora ali e que está direta ou indiretamente ligada ao tráfico?

    Mais de 30% da população ali dependia do tráfico. Acreditem. É verdade.

    “Ah! Mas o fulano de tal é honesto, não está ligado ao tráfico”

    Está sim. Ele tem um bar na favela e compra a cerveja ali mesmo, num cara que atende pelo nome de Ladrão de Caminhões da Brahma…

    Agora, ele vai comprar no asfalto? Vai falir.

    E quem vai tomar conta dos pontos de ônibus, moto-táxis, etc?

    Estou muito satisfeito com a ação do Estado, mas extremamente desesperançoso com o futuro daquela comunidade. Sem dúvida vai ser melhor do que estava, mas continuará sendo uma grande merda… e daqui a 2 semanas, 2 meses, 2 anos… bom, o futuro dirá o que vai acontecer.

    —————-

    Em tempo: Belo post, poeta. Se raciocinarmos de forma simples, o usuário tem culpa, pois é o seu dinheiro que financia o armamento que os caras compram. Só que, após a tomada do território, o tráfico vai continuar, como em qualquer lugar do mundo. Os caras estarão desarmados, mas o tráfico continuará como em Paris, NY, Londres, Macapá, Buenos Aires e a PQP! ENtão, voltando ao assunto, não seria razoável dizer q o usuário é o culpado pelas armas pesadas que os trafica ostentam!

    Publicado por gabricarqueijo | 29/11/2010, 6:14 pm
  6. Palmas palmas Leandro!
    Foi no amago da questão. A ausência do estado nas comunidades é a real causa da violência. A forma que ela toma pode ser jogo do bicho (dec 70 e 80), trafico de drogas (90 e 00), milicias e por ai vai. Tem-se que combater a infecção e não ficar dando remédio para febre, como foi feito por decadas e decadas!

    Publicado por Tapin | 29/11/2010, 6:21 pm
  7. Parabéns pelo texto. Muito bem escrito e com uma boa analise da realidade das favelas do Rio de Janeiro.
    Queria a sua opinião sobre as UPPs. A mídia,o Sérgio Cabral e outras “figurinhas”, tratam tais unidades como a 8º maravilha do mundo, mas vejo algo bem longe disso.Talvez mais um “colírio” que faça o “eleitorado” ficar cego por mais alguns anos. Os traficantes continuarão com a venda de drogas, as milícias atuarão como nunca e mais uma vez o povo ficará a mercê dessas políticas desastrosas. Creio que o buraco tá muito mais embaixo…

    Publicado por Daniel(Paulista) | 29/11/2010, 7:08 pm
    • Sobre as UPPs, acho a ideia ótima, a medida que ela ataca um dos problemas que eu citei: a ausência do Estado naquelas regiões.

      Tenho críticas a sua prática. A principal delas foi o fato de que ela tinha escolhido como premiados para começar com a política, apenas os bairros mais nobres da cidade.

      Agora, existe uma oportunidade única para eles acabarem com a minha crítica, que a instalação da UPP no Alemão. E pela primeira vez, a UPP será instalada com algumas prisões, pq nas anteriores foi assim: “Bandidos, fujam daí que nós vamos chegar!” E eles fogem pra algum outro lugar, mas ninguem deixou de ser bandido.

      Vamos esperar um tempo para saber se as UPPs são uma ótima medida ou apenas uma ótima ideia.

      De toda forma, não tenho esperança de que ela acabe com toda a violência da cidade, mas sem dúvida é a melhor ideia de política pública de segurança nos últimos 30 anos na cidade.

      Publicado por leonogueira | 29/11/2010, 7:25 pm
  8. O primeiro passo foi dado.

    Agora cabe ao Estado (autoridades) suprir a sua ausência no Complexo do Alemão, com a mentalidade de que ele foi o total responsável por tudo de mal que havia na comunidade.

    Publicado por Gustavo | 30/11/2010, 2:50 pm
  9. Pessoal tb concordo com a instalação das UPPs como uma política nunca antes realizada. Hoje assisti sobre um projeto no morro santa marta em botafogo falando sobre o esporte e o que ele tem feito pelas crianças daquela comunidade.
    O importante da UPP é esse mesmo, o futuro melhor para aquelas crianças, pois acredito que os que nunca tiveram alguma educação, saúde não passem a ser educados e saudáveis. Essa implementação é a longo prazo sim, mas que der certo dará certamente bons frutos!

    Publicado por Li. (salvemequempuder) | 30/11/2010, 4:11 pm
  10. Belo texto fera!

    Sobre as UPPs, a maioria estava em bairros nobres mas ja existem algumas em lugares nao tão nobres como no Batan…

    Eu acho a idéia das UPPs excelente, realmente uma das melhores políticas estaduais que tivemos nos ultimos tempos. Mas gostaria de adicionar uma reflexão.

    Será que os moradores dessas comunidades serão os mais beneficiados com as UPPs? Por quanto tempo vocês acham que após uma eventual instalação das UPPs no Vidigal, com sua localização privilegiada, seus atuais moradores vão resistir ao tentador aumento dos preços dos imoveis ou ao sufocante aumento aluguéis?

    Quando as reformas de Pereira Passos no início do seculo XX se concretizaram o centro da cidade melhorou muito, mas ficou economicamente inviável para os pobres morar no centro da cidade, e foram ai que as favelas começaram a surgir.

    O que vcs pensam? Será que ha espaço para casaroes com piscina e vista pro mar a 5 minutos do Leblon no Vidigal daqui a 5, 10, 20 anos ?

    Publicado por Quinze | 01/12/2010, 12:14 am
    • XV, muitos moradores construíram suas próprias casas ali e são donos delas. Vai ser bem difícil tirar eles dali. Além do mais, vc ta falando do efeito da UPP em uma das 500 mil favelas que tem no RJ.

      Mas, mais uma vez, essa é uma resposta que só o tempo dirá!

      Publicado por leonogueira | 01/12/2010, 9:36 am
    • Cabe mesmo uma reflexão. Além disso, se o tal ESTADO tomar conta daquela área, se ali tiver segurança, condições boas… Muita gente vai querer se mudar pra favela.

      E lembrando que na maioria das localidades do mundo, as áreas mais altas são sempre mais nobres…

      Publicado por gabricarqueijo | 01/12/2010, 2:34 pm
  11. Carqueijo, tenho fé em outro fenômeno: com crescimento econômico e crédito imobiliário, as pessoas tem anseios de progredir, como melhorar sua moradia. Agora, fundamental a melhoria em transporte. Os verdadeiros subúrbios no resto do mundo surgiram assim. Ou tremenda malha ferroviária (trem e metrô) levando às suas casas nos arredores (como na Europa), ou malha rodoviária decente e carro barato (nos EUA).Prefiro o primeiro modelo, mas o problema é saber se o dono do Rio (sogro do homem) vai querer.
    Abraços.

    Publicado por Rodrigo Peres Lobo | 02/12/2010, 4:37 pm
  12. Vidigal=Alpes?

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Publicado por Gustavo | 02/12/2010, 5:09 pm
  13. “Agora, chegamos no primeiro problema e mais importante de todos: o descaso histórico dos governantes cariocas com essa população. Durante muito tempo não foi dada a devida atenção para o crescimento das favelas”

    Eu responsabilizo TODOS OS GOVERNANTES. INCLUSIVE O LEONEL DE MOURA BRIZOLA.

    Publicado por Aranha | 03/12/2010, 7:17 pm
  14. E complementando, eu morei no pé do morro do alemão. Lá eu passava horas e horas soltando pipa numa total segurança. Lá eu tb conheci vários fundadores, compositores, passistas, ritmistas e componentes da Imperatriz Leopoldinense, que não tinha quadra ainda, e ensaiava no Clube Paranhos, exatamente na rua em que morei. Estou muito feliz com a retomada do meu berço, da paz que volta a reinar depois de duas décadas de tristeza e medo. Que isso não seja só uma maquiagem para a copa/olimpíadas, e Ramos volte a ser o bairro mais musical da Leopoldina, pois lá já moraram já moraram Baden Powel, Zé Menezes, PIXINGUINHA, Paulo Mora, Paulo Cesar Pinheiro, Matias de Freitas, Bidí, Zé Catimba, Cosme e Damião…
    Saudade da porra….

    Publicado por Aranha | 03/12/2010, 7:42 pm
  15. Consertando: Paulo Moura.
    E lembrando…Zé da Velha tb morou, e acho que ainda mora em Ramos.

    Publicado por Aranha | 03/12/2010, 7:58 pm

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