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Brasil, Finanças

Os Dois Lados da Moeda


Imagine que você é um investidor internacional e está escolhendo um país para investir. A primeira coisa que você vai olhar é a relação risco-retorno dos ativos. Existe um país que tem uma das mais altas, senão a mais alta, taxa de juros real do mundo. Este país é classificado com o grau de investimento pelas principais agências internacionais, tem regras monetárias estáveis há mais de 10 anos, não tem dívida com o FMI, tem um monte de gente saindo da linha da pobreza e querendo consumir e expectativa de crescimento de 4% a 5% do PIB. Você vai pensar duas vezes em investir neste país?

Pois é, o resultado disso é uma entrada extraordinária de Dólares, que pressiona a taxa de câmbio e valoriza o Real. E qual o problema disso? Na verdade, a valorização da moeda doméstica tem prós e contras. O problema é que os contras atingem principalmente os exportadores, que tem sua mercadoria mais cara no mercado internacional, os quais têm um lobby muito grande em qualquer país do mundo.

E qual seria o remédio? Na atual conjuntura econômica e considerando a política monetária adotada pelo Brasil, parece que não existe um remédio que resolva o problema. Vejamos como funciona este quebra-cabeça.

Desde 1999, o Brasil adota como política monetária, o regime de metas de inflação. Nesse regime, o Conselho Monetário Nacional determina a meta de inflação e o Banco Central vai ajustando a taxa básica de juros (SELIC) de forma a atingir tal meta. A relação entre inflação e taxa de juros, para os defensores desta política, funciona, de forma bem simplificada (a relação é muito mais complexa), assim: uma queda da taxa de juros, aumenta o crédito, que por sua vez aumenta a demanda. Se a oferta não acompanhar o crescimento da demanda, há uma pressão sobre o preço dos produtos e isso gera um aumento de preços. Chamamos este tipo de inflação de inflação de demanda. O efeito contrário também é válido.

O problema é que atualmente, a demanda no Brasil está aumentando simplesmente porque o país está crescendo, muitas pessoas estão saindo da linha da pobreza e querem entrar na era do consumismo. Assim, o fantasma da inflação já assusta novamente o brasileiro. E para conter a aceleração da demanda e por sua vez da inflação, o remédio adotado é o aumento de juros. Mas os juros altos atraem dólares, valorizam o Real e aumenta o preço das nossas exportações, gerando a pressão dos setores exportadores por um controle da apreciação do Real.

O remédio imediato seria baixar as taxas de juros. Mas as taxas de juros altas, no regime de metas de inflação, são o remédio para conter a inflação!!!

Por outro lado, o aumento do dólar, ao encarecer a importação de produtos importantes, pode gerar uma pressão inflacionária. Esta é chamada de inflação de custos.

Como eu disse anteriormente, e como tudo no mundo, a apreciação do câmbio tem prós e contras. Até agora, olhamos os contras. Mas os prós são igualmente simples de enxergar: as importações estão mais baratas! É hora de aproveitar as oportunidades e importar bens de capitais importantes para aumentar nosso investimento produtivo e fazer com que a oferta cresça no mesmo ritmo que a demanda, para diminuir a tal pressão inflacionária de demanda. Mas essa oportunidade é maior para quem tem acesso a crédito fora do país, porque aqui, os juros que servem para conter a demanda, servem também para conter o investimento.

Assim, o dilema do governo é o seguinte:

Se quiser conter a entrada de dólares no país e, consequentemente, a queda no valor da moeda estrangeira, tem que baixar os juros, o que por um lado pode aumentar o investimento, mas por outro pode aumentar a demanda e aumentar ainda mais a pressão inflacionária. E se o Dólar se recuperar, pode gerar uma pressão inflacionária de custos.

Por outro lado, o lobby para uma contenção da entrada de dólares é muito grande.

A solução encontrada pelo Governo foi a mais cômoda pra ele: aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras em algumas operações cambiais. Ele arrecada mais e toma uma medida para fingir que cedeu ao lobby.

No entanto, a melhor saída para esse quebra-cabeça é aproveitar a oportunidade e criar mecanismos para incentivar os investimentos produtivos. O aumento deles é a solução dos nossos problemas.

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Por Leandro

Discussão

2 comentários sobre “Os Dois Lados da Moeda

  1. Verdade, poeta.

    Mas criar mecanismos de incentivo à aquisição de bens de produção com essas taxas de juros que temos por aqui não é fácil não.

    O País cresce, a troco de uma bolha de crédito que não sei onde terá fim.

    O consumo (altíssimo nos EUA, por exemplo) aumenta muito por aqui, mas o reflexo desse consumo poderá e deverá ser sentido lá na frente. Vejo por aí crédito “a torto e direito” pra qualquer um. Quero ver o fim disso.

    Publicado por gabricarqueijo | 08/04/2011, 9:13 pm
    • Poeta, vc enxergou bem a complexidade do problema.

      As taxas de juros altas afetam o investimento, mas não tem segurado o ímpeto de crédito e consumo da população.

      É preciso se pensar em alternativas ao controle da inflação, sem aumento das taxas de juros… mas estas não existem no regime de metas de inflação.

      Isso é assunto para um post mais polêmico. rs.

      Dentro do regime de metas de inflação, e com esses juros altos, as melhores alternativas de incentivos são os fiscais.

      Publicado por leonogueira | 11/04/2011, 2:59 pm

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